O Valete de Copas
Ele Fecha os olhos. Enquanto pega as cartas, em algum lugar dentro de sua cabeça ouve uma nova melodia soprada sabe-se lá de onde. Talvez seja algum velho maestro lhe mandando um recado direto do além. O certo é que esse troço ecoa dentro dele como um estrondo. Nada a ver com música brasileira. A estrofe veio inteirinha em inglês. “I'm again discarding a player/I'm again discarding a player... Don't call me, man! It is not good you wonder why/Tonight I'm discarding a player/Jack, Jack of Hearts”. Então, ele começa a cantarolar baixinho. Nada mais inconveniente, ou fora do contexto, pois, no final das contas, lá estava o velho Elmo, um fodido de um perdedor de meia tigela, novamente enevoado numa maldita rodada de pôquer com um monte de caras desconhecidos. Está certo que a letra evocava algo familiar, no entanto, ele não estava em um maldito estúdio de gravação! Longe daquela meia luz tremeluzente sobre a mesa dar os ares de um palco ou coisa parecida. A cantoria não soou bem. Parecia deboche. Na mesa, além de Elmo havia mais quatro jogadores. O chorão, o espertinho trapaceiro e o silencioso. E foi justamente esse último sujeito, posicionado ao seu lado, exatamente o mais próximo a sua esquerda que demonstrou reprovar a cançãozinha improvisada. Elmo se fez de desentendido. Uma droga de som inaudível tocava ao fundo na sala ao lado. Sem definição. Excesso de graves e chiadeira comendo frouxa. Música ruim. Não interessa. É a nova melodia que impera na sua mente.
O crupiê deu as cartas e ele fez ar de desinteresse. Continuou cantando só pra ele; “I'm again discarding a player/I'm again discarding a player...” O homem silencioso novamente o olha de canto de olho. O cigarro do sujeito pende no lado esquerdo da boca prestes a despencar. E cai de vez quando ele fala de uma forma descontrolada (em um tom sussurrado): “Cara! Não vai pegar as tuas cartas?“. Elmo pensou “Hummm, esse idiota fala!“. Olha fixamente pro cara com um sorriso cínico e controlado. “Claro”. “Só se for agora”, responde de bate pronto. Então, ele posiciona a sua fração correspondente do baralho entre ambas as mãos e aos poucos vai desvelando a mágica. Os dedos próximos ao rosto e as cartas bem em frente aos olhos. Eis que surgem dois ases negros, dois oito negros e um valete de paus. Esbugalha os olhos. Era a “Mão do Morto”, famosa combinação de cartas que o pistoleiro de aluguel Wil Bill Hickok tinha em suas mãos quando foi assassinado com um tiro pelas costas por um tal de Jack McCall, num Saloon de Deadwood, Dakota. Uma premonição? Ele conhecia essa história desde os onze ou doze anos. Ele guardara por vários anos entre suas coisas o gibi do Ken Parker que narrava esse epísódio. “A Balada do Pistoleiro”.
Inicialmente enxerga essa coincidência como um bilhete premiado. Como uma boa história pronta pra ser escrita. Pensa em diversas situações que aparentemente não tem nada a ver com essa. Um desenho incrível de uma mulher nua aprisionado no escuro de uma gaveta. A surpreendente declaração de amor que ainda não foi dita. O segredo solene ainda longe de ser revelado. Alguém lhe avisou que a chave do cofre não leva ao autêntico tesouro. Quem sabe algum tipo de suprema liberdade seja conquistada de verdade com essa nova cartada. Entretanto, a música esperada dificilmente toca na hora certa. Assim como a trepada do século deixou certo sabor de decepção. Lembrou que no último beijo que ganhou de Rose, a língua dela ficou impassível, quase imóvel.
Do lado de fora, pela janela entre-aberta as suas costas sente o cheiro de grama cortada. Qualquer idiota sabe que a chuva & o calor aceleraram a vingança das ervas daninhas. Os inços geralmente chegam à frente. Lembra do livro que encontrou na lata de lixo, e das respostas nunca respondidas durante a leitura. Não que buscasse alguma porra de livro de auto-ajuda. Bem pelo contrário. Na verdade ele tinha receio de exorcizar os demônios, e depois, conseguintemente sentir saudade do infortúnio deles. Desde cedo aprendeu - banhos demorados não removem toda a sujeira. Apesar de estar muito bem engomado, o terno de listras herdado do Tio Joni não saiu do guarda-roupa. Estava vestido com uma roupa qualquer. Lembrou de uma das mulheres que passaram pela sua vida. Carne de primeira petrificada num freezer de terceira. No final das contas, a melhor carta nem sempre possibilita uma vitória. Conquistar o sossego pode fazer o silêncio soar como um trovão. Por isso, resolve não brincar com aquela combinação histórica. Troca o Valete de Paus. A nova carta que chega é parecida com a que foi descartada. Outro Valete. Só que de Copas. Sorri. A “mão” do jogo era dele. Aposta metade das fichas. O lance de esboçar um sorriso a lá Paul Newman em “Golpe de Mestre” parece ter impressionado metade da mesa. Três jogadores caem fora. Resta o ex-silencioso homem da esquerda. Então, uma a uma coloca as últimas cinco fichas no tablado.
Fica encarando o Valete e por uma fração de segundos. Imagina a carta como um organismo vivo. “Apenas um ganha o jogo”, ouve essa frase com muita clareza. Vinda do nada. Talvez fosse o Valete de Copas falando com ele. Ouve um último aviso “Muitos já tentaram. Poucos se deram bem”. Olhando o oponente com desprezo, resolve pagar pra ver. Lembra que se esqueceu de fazer uma oração aos Deuses da Luxúria. Pisca o olho para uma garota imaginária e acaba com a droga do suspense. Acima de tudo, um homem precisa ter um pouquinho de sorte, e principalmente, coragem pra meter os peitos em uma situação dessas. Ele nunca mais esqueceria aquela noite. “Abre os olhos, diabo!”.
2
Esmagado pelo dedo de Deus
Eu perdi a partida antes mesmo de cortar o baralho. Eu não jogo porra nenhuma faz tempo. Não tenho pinta de farsante, e afinal - Eu sempre fui inofensivo, minhas garras não foram afiadas, & nunca soube blefar. Larguei a jogatina, pois me denuncio. Meu olho tremula toda vez que armo o bote. Sabe, tenho a impressão que não me conheces. Devo ter falhado contigo mais uma vez. É... Talvez não saibas quem realmente eu seja. É provável que me vejas como um enganador qualquer. Oh, Rose! Uma pena me julgares como a qualquer outro. Toda vez que sou desacreditado, temo que não me conheças de verdade. A imagem que tens de mim, parece distorcida. Porque turva-me frente aos teus olhos? Eu abandonei a cor cinza por tua causa & agora tu me jogas toda essa vingança parda?
Agora bebo em silêncio, eu & minha sina. Geralmente brindamos quando todos estão dormindo & principalmente quando os grilos já cansaram de fazer barulho. Gosto de ouvir os pequenos detalhes. No final das contas, são os pequenos detalhes que fazem toda a diferença. Antes que a última gota se esgote da garrafa, eu também me declaro esgotado. Chega! Estou cansado de ser incompreendido & demasiadamente rotulado como alguém que apenas dispara armadilhas. Uma pena pensar assim, Milady. Desde criança não mato nem as formigas. Eu sempre sou pego nessa brincadeira de esconde-esconde. Na verdade eu nunca fui criança, nasci com 30 anos, mas tenho a ingenuidade de um garotinho. Acho que nunca irei crescer ao ponto de compreender a natureza humana.
Daqui a pouco a lua irá espiar a noite. Será que amanhã vai chover de novo? Vejo um círculo, uma espécie de auréola em torno do astro dependente da Terra, algo que empresta um ar imaculado a lua nova. Às vezes caminho por dias a fio e não vejo uma viva alma. Quase sempre raciono água e como apenas sementes e alguma coisa que possa ser mastigada. Sigo em frente como uma diminuta luz opaca entre o vazio. Agora sou um solitário de verdade. Tirando alguns os esquilos e pequenos animais que o rondam minha jornada, a Terra de Ninguém havia sido esmagada pelo impiedoso dedo do Criador. Parei em frente a um pequeno lago e atirei uma pedra na água escura e natimorta. Um pedaço de um automóvel emerge mais ao fundo. Uma revista, ou o que restara dela, ilustra uma coleção de louça chinesa. Sinto uma leve brisa vinda do norte. Imagino um barco a vela para atravessar pro outro lado. O sol surge entre as nuvens e ilumina os destroços de uma igreja. Ruínas cinzentas com apenas um ponto reluzente. Um sino de prata resiste despencado sobre o monte de pedras.
Resolvo contornar o lago e conferir de perto O braço dói insistentemente. Talvez tenha trincado osso na última queda. As pernas estão pesadas como se tivesse correntes e bolas de ferro acorrentadas a elas. Olho no relógio e acho estranho que a noite já começasse a encenar um novo capítulo, afinal, são apenas cinco da tarde. Lembro de como as coisas eram a algumas semanas. Um pouco antes do “Big Crack”. É... Só agora percebo que o lado negro da força foi regido (inclusive) pela minha batuta. Cerca de 20 minutos depois alcanço os restos mortais da catedral. Bem de perto posso ver o gigantesco sino rachado. Bato com uma pedra e o metal prateado praticamente não emite som. Puxo da bolsa uma caneta esferográfica e anoto no meu bloco: “O Grande Sul agora é o Velho Oeste. O mar perdeu o encanto e engoliu as cores. Negro. Eu não passo de um Navio Fantasma em busca de sabe se lá o que”.
Não sei como, mas ainda tôo por aí. Vi o novo mapa mundi desenhado por um louco que recebeu a luz divina & trago boas novas! Parece que existem grandes possibilidades de um cara indeciso como eu sobreviver nesse tal mundinho pós-escrofuloso que está vindo a reboque. Tenho uma ferida aberta no espírito & sigo derretendo pelos quatro cantos de qualquer ilusão. Já viu um ovo choco furado vazando clara & gema & mau cheiro pelo chão? Um daqueles acidentes de percurso que aconteceram quando piscamos os olhos por um segundo e... BOOM!
O guarda-freio não avisou ninguém & agora entendo esse reflexo de sol esquisito que incomoda quando estou de mau humor o tempo todo acendendo o pisca - alerta & a luz de emergência. Talvez seja pelo fato de estar sóbrio a essa altura da tarde quase noite empedrada de matizes & bolor. Imagine então o vácuo do universo apitando na cara do sujeito & ainda fazendo vapor a embaçar qualquer discurso de defesa antes de relatar ao novo Presidente dos Estados Unidos da Discórdia que é um absurdo alguém dizer que faz isso ou aquilo de forma premeditada! Afinal, o que adiantou ter uma conta bancária & uma carteira repleta de passes? Agora toda essa porcaria não serve pra nada. A única compra-passaporte-de-prazer-instantâneo é um livro encontrado prestes a ser devorado da primeira a última linha. É esse não é o verdadeiro fim da linha. O fio da meada enrola na minha forma de pensar & sempre soube que (às vezes) comer não passa de algo supérfluo. Dormir pouco é o segredo da iluminação instantânea que nunca bate na porta antes de sentir o gosto do mingau de sarjeta daqueles dias que vieram quadrados. Nunca tive nenhuma vontade de queimar os neurônios ou os papéis de rascunho que esqueletaram histórias ainda não escritas & agora contadas como desejos secretos.
Tudo não passa de conversa fiada & pasto vitaminado pra otário dormir antes que o sono dê o bangornaço final. As respostas ainda não foram escritas na lápide de Sidarta que foi roubada sem nunca ter existido. O cemitério está na cabeça dos caras. O velho Moisés não nos disse nada & nunca mais dirá coisa nenhuma. Algumas revelações não poderiam ser reveladas. Lembro dos ratos fugindo dos homens como perguntas precisando cessar antes que outro dique venha abaixo. Necessito urgentemente entender o fluxo maluco que afunda como uma adaga afiada cruzando meu peito & fazendo sangrar a ferida aberta em meu coração que ainda não foi enterrado na curva de nenhum rio poluído. É pouco. Praticamente nada. Ouço o apito do finado trem da 1/2 noite chegando atrasado. 17h29min da tarde com cara de noite. Só me resta deitar no meu saco de dormir. Dormir é outra história.
3
A Locomotiva a vapor
O inverno em mim. Eu tenho um olho congelado no nada enquanto o outro treme no vazio me avisando de algo. Vou decretar o óbito do óbvio, embora eu não tenha a mínima noção do que seja exatamente isso... Não vou amarelar frente às luzes vermelhas, alaranjadas. Eu sou uma casa que incendeia no meio da noite. As labaredas parecem fogos de artifício. Mil línguas de fogo lambendo o negro céu em julho. Todo o meu corpo feito de madeira tremula na ponta da lança & dança feito chama em ponto de bala. Fui posto a baila antes de o louco INCENDIÁRIO riscar o último fósforo da caixa. Esse maluco derruba aviões, pilha navios e saqueia trens enquanto eu sonho. Esse doido dos diabos não tem ideia do estrago que fez noite passada dentro da minha cabeça.
Eu sou uma casa abandonada que incendeia no meio da noite. Eu sou o trem da meia noite que passou adiantado às 17h29min. Ninguém se importa, ninguém entende ou percebe que os acentos dos passageiros e a mobília da casa já foram pra banha faz um bocado de tempo! Todas as páginas do casebre foram folhadas & rabiscadas, mas ninguém vai ler as anotações feitas na contracapa, ou nas paredes dos vagões. A sala vai adormecer pra sempre enquanto o fogaréu dá um jeito nas manchas dos lençóis no quarto de hóspedes. As panelas da cozinha derreteram & o metal fundido escorreu pelos corredores da memória. A varanda foi dominada no ato pelas flamas ardentes. Se tivesse alguém por perto, poderia ouvir as risadas dos fantasmas que ecoaram pelo descampado afora. Fumaça pra todo o lado. Nem mesmo a chuva fina dá um fim no cinza & na névoa. Chove duas vezes. Duas vezes faz fumaça. Duas vezes essa noite. Duas vezes maldição. Duas vezes. Duas vezes foi acordado pelo apito do trem.
Eu acordo cambaleante e caminho pela estação de trem abandonada. Pulo sobre os dormentes atravancados e recolho um pingente de prata que deve ter pertencido a uma mulher qualquer. Coloco-o em um compartimento de minha bolsa. Olho os trilhos retorcidos e imagino uma velha e imensa locomotiva rosnando ruidosamente sobre os trilhos como se fosse um demônio feito de vapor e ferro. Lembro da viagem que fiz com Rose no último inverno. Passeamos em um trem turístico que cortava um vale sinuoso da antiga Serra Gaúcha. É quando percebo vindo ao meu encontro um homem negro de cabelos grisalhos. Ele parece ter 70 e poucos anos. O veterano cruza em câmera lenta e mantêm a cabeça baixa. Parece cansado. Em apenas uma fração de segundos (quando o velho cruza bem ao seu lado), nos entreolhamos. Percebo que se trata de um rosto familiar. Seu caminhar, o terno surrado, o violão, o chapéu, todo o protótipo de um antigo bluesman. Lembro de Son House. O velho desaparece por trás de uma edificação. Teria sido uma maldita visão? Deve ter sido. Gostaria de ter conversado com o coroa. Quem sabe ter a possibilidade de ouvi-lo tocar seu violão. Aquela imagem se fora. Não antes de ganhar uma impressão em letras graúdas na chapa da memória. Entretanto, uma ilusão que infelizmente não pode ser aprisionado de uma forma mais convincente. Afinal, montanhas não podem ser levadas pra casa. Somente terremotos a tiram do seu sossego milenar.
